Ciática · Dor na perna

Quando a dor desce pela perna.

Ciática não é um diagnóstico, é uma descrição: dor que segue o caminho do nervo ciático, da nádega para a perna e às vezes até ao pé. Assusta, porque é forte e estranha. A boa notícia é que, na grande maioria dos casos, melhora. E há muito que se pode fazer enquanto isso acontece.

Leonardo Monteiro · Acupuntor clínico · 28 anos de prática · Cédula C-05000400

Em três linhas

  • A ciática é um nervo irritado, quase sempre à saída da coluna lombar.
  • Na maior parte das pessoas melhora em semanas ou poucos meses, sem cirurgia.
  • Movimento ajustado ajuda mais do que repouso total. O tratamento serve para tornar esse movimento possível.

O que se passa, afinal

O nervo ciático é o mais grosso do corpo. Nasce de várias raízes que saem da parte baixa da coluna, juntam-se na nádega e descem pela parte de trás da perna. Quando uma dessas raízes fica apertada ou inflamada, a dor não fica onde está o problema: aparece ao longo de todo o caminho do nervo.

As causas mais comuns são três.

  • O disco

    Uma hérnia ou protrusão toca na raiz do nervo e irrita-a. Costuma piorar sentado, a tossir ou a espirrar.

  • O canal apertado

    Mais frequente depois dos 60. As pernas ficam pesadas ou dormentes a andar e aliviam ao sentar ou ao inclinar o tronco para a frente.

  • A nádega

    Os músculos profundos da nádega, quando contraídos, também irritam o nervo. Dói sobretudo na nádega e piora sentado muito tempo.

E há uma "falsa ciática", muito frequente: dor que vem da lombar ou da articulação da bacia e se espalha para a nádega e para a coxa, mas não passa do joelho nem dá "formigueiro". Não é o nervo. Trata-se de outra forma, e é por isso que o exame importa.

Infografia da ciática. À esquerda, uma vértebra com disco saudável ao lado de outra com hérnia de disco a comprimir a raiz do nervo, e o nervo ciático a descer da lombar pela parte de trás da perna até ao pé. À direita, as zonas de dor de cada raiz: L4 na frente da coxa e no joelho, L5 no lado de fora da perna, peito do pé e dedo grande, S1 na parte de trás da coxa e da perna, calcanhar e bordo de fora do pé.
Do disco até ao pé: onde o nervo é irritado e por onde a dor desce. Toque na imagem para ampliar.

Numa frase

Na ciática o nervo não está "cortado" nem "esmagado". Está irritado e sensível. Acalmá-lo e dar-lhe espaço é o que permite que a recuperação natural aconteça.

Até onde desce a dor diz muito

O sítio exato onde a dor chega à perna e ao pé dá uma pista sobre qual é a raiz envolvida. Quando desce pelo lado de fora da perna e chega ao peito do pé e ao dedo grande, costuma ser a raiz L5. Quando segue pela parte de trás da perna até ao calcanhar, à planta do pé e ao dedo mindinho, costuma ser a S1. São as duas mais frequentes. A L4 é menos comum e fica mais pela frente da coxa e pelo joelho.

Estes mapas são aproximados e variam de pessoa para pessoa. São uma pista, não um diagnóstico: quem confirma é o exame.

Que pontos se usam na ciática

Seguem o caminho da dor: junto à coluna, na nádega e ao longo da perna. Tal como expliquei a propósito da dor lombar, os códigos são apenas moradas. O que interessa é o músculo e o nervo que estão por baixo da agulha.

Ponto Onde fica Porque se usa
Huatuojiaji
Pontos paravertebrais
Junto às vértebras lombares, de cada lado Para atuar perto do sítio onde a raiz do nervo está irritada
VB30
Huantiao
Na nádega, em profundidade O ponto clássico da ciática. Fica sobre o caminho do nervo
B54
Zhibian
Na nádega, ao lado do osso sacro Sobre os músculos profundos da nádega
B40
Weizhong
Atrás do joelho, no meio da prega Na linha da dor que desce pela parte de trás da perna
VB34
Yanglingquan
Do lado de fora da perna, logo abaixo do joelho Quando a dor desce pelo lado de fora da perna
B57
Chengshan
A meio da barriga da perna Para a dor e as cãibras na parte de trás da perna
Ah shi
Pontos doridos
Onde dói quando se apalpa Os pontinhos "trigger" na nádega e na coxa, muitas vezes o alvo principal

Na ciática uso muitas vezes eletroacupuntura: uma corrente muito suave nas agulhas, que ajuda a acalmar um nervo que está a enviar dor sem parar. Sente-se uma pulsação, um "formigueiro", e nunca deve doer.

Como decorre, na prática

Primeiro conversamos e examino. Os testes "neurológicos" aqui são essenciais: peço para andar em bicos de pés e nos calcanhares, testo reflexos, sensibilidade e força, e levanto a perna esticada para ver quando a dor aparece. Isto diz-me se é mesmo o nervo, qual é a raiz e se há algum sinal que exija exames.

Na fase mais aguda o objetivo é aliviar: encontrar posições que tirem pressão ao nervo, radiofrequência (tecarterapia) para o corpo sair do estado de alerta, e acupuntura. Manipulações na lombar, só quando o caso o permite e o corpo as tolera bem. Depois entram exercícios simples para o nervo "deslizar" melhor e voltar a ganhar tolerância ao movimento.

Ao início costumam ser uma a três sessões por semana. Depois vai espaçando. Na maioria dos casos o tratamento ativo dura entre um e três meses.

O que muita gente espera

"Tenho uma hérnia, isto só se resolve com uma operação."

O que acontece

A maioria das ciáticas melhora sem cirurgia, e muitas hérnias encolhem sozinhas com o tempo. A operação fica reservada para casos específicos.

Sinais que mudam a prioridade

A grande maioria das ciáticas melhora com tratamento e tempo. Mas há sinais que significam outra coisa e que não podem esperar.

Vá às urgências se acontecer isto

  • Dificuldade em urinar, ou perda de controlo da urina ou das fezes.
  • Dormência na zona genital, no períneo ou na parte interior das coxas.
  • Dor e fraqueza nas duas pernas ao mesmo tempo, ou fraqueza a piorar de dia para dia.

Estes sinais podem indicar compressão dos nervos na base da coluna. É raro, mas as horas contam.

Precisa também de avaliação rápida se o pé começar a "cair": não consegue levantar a ponta do pé, tropeça ou arrasta-o ao andar. E peço para investigar antes de avançar quando há febre, perda de peso sem explicação, história de cancro, dor a seguir a uma queda ou dor que não alivia em nenhuma posição, nem de noite.

Quem chega aqui com ciática

Muita gente que passa o dia sentada, que é precisamente a posição que mais carrega os discos da lombar. Juntam-se as horas no carro até ao Taguspark e o fim de semana em que se decide pegar em pesos ou jogar padel sem preparação. Chegam também corredores, com dor na nádega que confundem com ciática e que muitas vezes é muscular.

Nestes casos o tratamento alivia o nervo, mas a recuperação consolida-se quando a forma de estar sentado e de voltar ao exercício também muda.

O consultório fica dentro do parque, a dez minutos a pé de qualquer empresa. Dá para vir à hora de almoço e voltar sem ter perdido a tarde.

Avaliação inicial

Diga-me onde começa a dor e até onde desce, em duas linhas.

Resposta rápida pelo WhatsApp. Casos agudos sempre que a agenda permite.

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Perguntas frequentes

Devo ficar em repouso?

Repouso total na cama atrasa a recuperação. Caminhadas curtas e frequentes, dentro do que é tolerável, costumam ajudar mais. Alguns dias mais calmos no início, sim. Semanas deitado, não.

Preciso de fazer uma ressonância?

No início, normalmente não. Faz sentido quando há sinais de alarme, quando há perda de força, quando não melhora ao fim de cerca de seis semanas ou quando se pondera cirurgia.

Quanto tempo dura uma ciática?

Muitas pessoas melhoram bastante em seis a doze semanas. Há casos mais rápidos e outros que levam mais tempo. A dor costuma ir-se primeiro, o "formigueiro" e a dormência às vezes demoram mais.

Tenho ciática na gravidez. A acupuntura pode ajudar?

A dor na nádega e na perna é frequente na gravidez e pode ser tratada com segurança, com cuidados próprios: há pontos que não uso nesta fase e as posições adaptam-se. Diga-me sempre se está grávida.

Qual a diferença entre ciática e dor lombar?

Na dor lombar a dor fica nas costas. Na ciática a dor principal está na perna, muitas vezes abaixo do joelho. Podem aparecer juntas, e o tratamento tem pontos em comum.

Se a dor fica sobretudo nas costas, leia também Acupuntura para dor nas costas.

A acupuntura é uma profissão regulamentada em Portugal. Exige formação universitária de quatro anos, com estágios e prática clínica supervisionada, e cédula profissional emitida pela ACSS. Os locais de atendimento estão registados na Entidade Reguladora da Saúde.

Este texto serve para informar, não substitui uma avaliação individual. A descrição dos pontos e das zonas de dor ajuda a perceber o que se passa no corpo, não é um guia para autodiagnóstico nem para espetar agulhas em casa. O que fazer, e com que frequência, decide-se caso a caso, a partir do exame de cada pessoa.